Eu acordei.
O céu estava azul. Mas não era um azul qualquer. Era um azul prazenteiro... um azul quase que galhofeiro... aquele mesmo azul padrão que o mar da Culatra apresenta quando cruzado pelos últimos raios de sol da tardinha... aquele mesmo azul que emana do céu puro e límpido da alvorada em meados de Novembro... Sim... era esse mesmo azul...
O chão era castanho. Mas não era um castanho qualquer. Era um castanho impetuoso... um castanho cheio de vida... aquele castanho que a areia da praia tem depois de banhada pela vazante... aquele castanho quase que dourado que a areia dos regatos tem quando os pássaros migram... Sim... era esse mesmo castanho...
A vida sorria-me. Parecia que tinha acabado aquele tormento; Parecia que já não fazia frio lá fora; Parecia que os pássaros tinham voltado para o sul; Parecia que as chagas dos joelhos de tanto baquear estavam finalmente curadas; Apetecia-me gritar na euforia e exaltação de todo o meu ser "Eu estou feliz!"
Eu caí.
O céu estava negro. Mas não era um negro qualquer. Era um negro desengraçado... um negro quase que terrífico... aquele mesmo negro que apresenta aquelas noites fleumáticas... aquele mesmo negro que emana da veste de luto quando falece o ente para nós mais predilecto da família... Sim... era esse mesmo negro...
O chão era cinza. Mas não era um cinza qualquer. Era um cinza difundido... um cinza horrivelmente confuso... aquele mesmo cinza que a terra do campo tem depois de ter ardido toda a zona verde da vila... aquele cinza que tem o terreno crestado resguardado de defuntos depois de uma ofensiva bélica... Sim... era esse mesmo cinza...
A vida troçava de mim. Parecia que tudo estava escuro de repente; Parecia que tudo tinha sido engolido num vortex afectuoso; Parecia que não caminhava uma única alma emancipada daquela glacial escuridão que abatia; Parecia que fazia frio lá fora; E... apetecia-me gritar no maior desgosto e mágoa "Eu quero morrer!"
E eu... eu...

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