segunda-feira, dezembro 01, 2008

Quem és tu?



Tenho em mim todos os males do mundo.
Mágoas que me queimam chagas de outrora,
Alastram-se e consomem-me agora;
Deportam-me. Tornam-me imundo.

Oh eterna tormenta que um dia apagaste
Pandora. Porque despertaste tu para mim?
Com o teu sopro frio do Norte tudo debilitaste
E agora corres em minha direcção enfim?

Foste fruto na árvore de Adão
E Nero sobre Roma a arder.
És treva nos olhos de quem não quer ver.
És ódio que abrasa alma e coração.

Sejas tu todas as pestes do mundo
Ou não, existe uma base única
Em todo este cosmo sem luz nem fundo.
Música.

terça-feira, abril 08, 2008

Abril


É dia de chuva.
Gosto particularmente das chuvas de Abril. Chove e não para, por vezes; tão intensamente que as areias desta ilha (daquela ilha), ficam quase que encobertas por água. Estas areias encardidas (que apesar de encardidas tão boas recordações me trazem), encardidas de um tom alvo de carvão, fartam-se de poças. Cães, gatos, pássaros e toda uma quantidade infindável de não sei o quê de bichos abrigam-se nesta selva (naquela selva) de quintais infamados.
E lá está o velho, tão velho como todos os outros, sentado no alpendre. Escuta o tilintar da chuva; o salpicar amontoado e engraçado das gotas de chuva naquelas telhas estafadas. Mas escuta um som diminuto; um som deficiente e quase mudo, que até lhe confunde. Quiçá nem o oiça.
O velho, com a sua boina medonha, de foco no horizonte, pensa em algo incógnito para muitos (talvez mesmo para ele); algo que terá, quase que de certo, a ver com as marés e com o vento. Os seus pés, anacrónicos e sujos, jazem dentro de sapatas feias (quase sem algodão) e ensopadas do pranto dos céus.
Aquele sujeito de ar enfadonho (rústico, mas humilde), de malga de barro na mão, veste uma camisa, ou blusa, ou pijama ou sei lá o quê, mas emporcalhada é vero. Ninguém sabe o que ele segura dentro daquela malga. Nem tão pouco ele, ou até mesmo a sua própria mulher. Pouco lhe importa que aquela mistura amarelada (ou talvez acastanhada) seja sopa de beldroegas, ou papas de maizena, ou crepas moles. A ele não interessa.
Aquele homem gasto, está ali, sentado naquele alpendre, a auscultar uma chuva que mal ouve, a descobrir um sol que mal descobre, a sentir um levante que mal existe, a segurar uma malga que arrefece. Ninguém sabe por que razão o velho está ali sentado. Nem sequer o que faz uma cerveja morna no muro do seu alpendre.
É dia de chuva.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Desalinhado



Encontro-me desencontrado do que sou
E do que fui e do que ambiciono ser.
Não sei como nem tão pouco onde vou,
Nem sequer perto nem longe de algo ter.

Nem sinto nem minto nem aparento
Nada daquilo que penso que existo.
Sou ou vivo o que julguei ter sido,
Ou que acredito que possa ter tido.

Não sei o porquê da causa da incerteza,
Nem tão pouco o que me dói ou não.
Sei apenas que não sinto ou sinto certeza
De coisas que me afundam e não sei o que são.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Existo



Sinto. Finjo. Minto.
Arrisco. Escrevo. Risco.
Volto a sentir. Sinto?
Será que estou a fingir? Arrisco.
Vou voltar a fingir.

Escrevo e reescrevo o que sinto,
Apago e volto a escrever.
Está escuro. Estou gélido e faminto
De sentir. De algo que me faça viver
Num mundo sem fundo. No meu utopismo.





Poema elaborado dentro da temática de F.A. Pessoa para teste escrito.
Publicado a pedido da minha professora de L.C.P. Cristina Cantinho ;)