terça-feira, abril 08, 2008

Abril


É dia de chuva.
Gosto particularmente das chuvas de Abril. Chove e não para, por vezes; tão intensamente que as areias desta ilha (daquela ilha), ficam quase que encobertas por água. Estas areias encardidas (que apesar de encardidas tão boas recordações me trazem), encardidas de um tom alvo de carvão, fartam-se de poças. Cães, gatos, pássaros e toda uma quantidade infindável de não sei o quê de bichos abrigam-se nesta selva (naquela selva) de quintais infamados.
E lá está o velho, tão velho como todos os outros, sentado no alpendre. Escuta o tilintar da chuva; o salpicar amontoado e engraçado das gotas de chuva naquelas telhas estafadas. Mas escuta um som diminuto; um som deficiente e quase mudo, que até lhe confunde. Quiçá nem o oiça.
O velho, com a sua boina medonha, de foco no horizonte, pensa em algo incógnito para muitos (talvez mesmo para ele); algo que terá, quase que de certo, a ver com as marés e com o vento. Os seus pés, anacrónicos e sujos, jazem dentro de sapatas feias (quase sem algodão) e ensopadas do pranto dos céus.
Aquele sujeito de ar enfadonho (rústico, mas humilde), de malga de barro na mão, veste uma camisa, ou blusa, ou pijama ou sei lá o quê, mas emporcalhada é vero. Ninguém sabe o que ele segura dentro daquela malga. Nem tão pouco ele, ou até mesmo a sua própria mulher. Pouco lhe importa que aquela mistura amarelada (ou talvez acastanhada) seja sopa de beldroegas, ou papas de maizena, ou crepas moles. A ele não interessa.
Aquele homem gasto, está ali, sentado naquele alpendre, a auscultar uma chuva que mal ouve, a descobrir um sol que mal descobre, a sentir um levante que mal existe, a segurar uma malga que arrefece. Ninguém sabe por que razão o velho está ali sentado. Nem sequer o que faz uma cerveja morna no muro do seu alpendre.
É dia de chuva.